7 de agosto de 2017

SEGURANÇA E LIBERDADE

"As palavras têm significado: algumas delas, porém, guardam sensações. A palavra ‘comunidade’ é uma dessas". É assim que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman introduz a sua obra Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Com seu estilo próprio de abordar as questões da modernidade, reluzentes no mundo urbano, o autor irá centrar a sua análise na noção de "comunidade" e o paradoxo que este conceito traz: se por um lado ela emana uma sensação boa, de se ter com quem contar, tudo que um citadino – imerso em um mundo impessoal – precisa para viver tranqüilo e confiante, por outro lado limita uma das maiores conquistas modernas: a liberdade individual. O grande dilema que se abre aqui é o de que a balança entre segurança e liberdade não encontra uma média exata e, conseqüentemente, uma tende para cima enquanto outra tende para baixo. Segurança e liberdade nunca vêm na mesma proporção e por isso não podemos ter ambas ao mesmo tempo e na quantidade que quisermos.

O desequilíbrio na balança segurança/liberdade no contexto comunitário ressalta a diferença entre a antiga e a moderna comunidade. Sobre a base teórica formulada por Ferdinand Tonnies, Bauman afirma que a antiga comunidade se baseia em um entendimento compartilhado por todos os seus membros e que não precisa ser procurado, pois, já está lá: entendido sem que nem houvesse palavras, emanando um sentimento recíproco e vinculante, que passa despercebido por sua evidência e naturalidade. Como define o autor, uma negociação prolongada que pode resultar em um acordo que, sendo obedecido cotidianamente, torna-se um hábito e não precisa mais ser repensado, monitorado ou controlado. Tal como Tonnies, Robert Redfield acredita que em uma verdadeira comunidade não há motivo para reflexão, crítica ou experimentação, pois a unidade da comunidade ou a naturalidade do entendimento tem o mesmo fundamento: a homogeneidade, a mesmidade.

É exatamente essa mesmidade que entrará em conflito quando os limites entre a comunicação "de dentro" e "de fora" se tornam mais tênue, tornando ainda mais confusa a distinção entre "nós" e "eles". Em um contexto de modernidade, onde as bruscas mudanças no tempo das comunicações rompem a fronteira entre o "dentro" e o "fora", cabe então uma outra formatação para a ideia de "comunidade". Assim, a ideia de "identidade" ganha vigor. Para o autor, "identidade" significa aparecer, ser diferente e singular. Para qualquer um dos lados da moeda, há que se pagar um preço, pois da mesma forma que segurança sem liberdade equivale à escravidão, a liberdade sem segurança equivale a estar perdido e abandonado.

Para elucidar esta questão teórica tão bem construída, vale considerar o estudo realizado por Norbert Elias e John Scotson (2000) no final dos anos 50. Em Winston Parva, nome fictício da pequena comunidade estudada, o conflito existente entre os "estabelecidos" e os outsiders, expressão que intitula a obra, evidencia as diferenças entre os dois grupos. Enquanto que os estabelecidos apresentavam um alto grau de homogeneidade, coesão social e objetivos comuns referentes à defesa dos seus padrões morais, os outsiders eram marcados pelos fracos laços de solidariedade social que deixavam o terreno fértil para que o estigma lançado pelos "estabelecidos" fosse internalizado pelo grupo e evidenciado numa falta de orgulho e baixa estima coletiva.

Entretanto, o alto grau de coesão social presente no grupo dos "estabelecidos" não custou barato. Para tal aquisição um alto preço foi pago: a submissão e a conformidade dos indivíduos às normas comunitárias e a relativa perda de espontaneidade de seus membros. Essas características do grupo dos estabelecidos fogem à média encontrada na sociedade da atualidade, uma vez que a individualização tornou-se a sua marca registrada. Nesta perspectiva, Bauman analisa o processo de industrialização, em que as "massas" foram tiradas da rígida rotina da interação comunitária governada pelo hábito e colocadas na rígida rotina do chão da fábrica governado pelo desempenho de tarefas. Desmorona-se a comunidade onde as intrincadas teias de interações humanas que dotava o trabalho de sentido e objetivo passam a se posicionar como equipes de fábrica regidas por uma rotina artificial imposta.

A partir destas análises, Bauman conclui que duas tendências acompanharam a história. A primeira foi um esforço consistente de substituir o "entendimento natural" da comunidade, seu ritmo e sua rotina por uma outra rotina artificialmente projetada e monitorada. A segunda, uma tentativa de recriar um "sentido de comunidade" adaptado à nova estrutura de poder pautada na dinâmica e na rotinização do processo de produção, na impessoalidade da relação entre trabalhador e máquina, na fixação das tarefas de produção e na homogeneidade das ações dos trabalhadores.

Os pontos de orientações firmes e sólidos de uma sociedade pré-industrial se decompõem e o tempo de uma vida individual insegura se abre. Os laços sociais se enfraquecem na mesma medida em que enfraquecem as lealdades pessoais. Bauman afirma que é neste contexto que a comunidade entra em decadência e a união do que foi rompido parece não mais se suceder. Esta ideia de elo rompido, imerso em um mundo de incertezas, converge com a análise sociopsicanalítica que Eric Fromm faz sobre as necessidades humanas. Fromm (2000) argumenta que, ao nascer, o homem é tirado de uma situação definida e é jogado numa situação indefinida, incerta e aberta. A consciência – tanto de nós mesmos como dos outros – permite que nos entendamos como seres separados do mundo, desamparados e incapazes. Este estado de separação é fonte de uma ansiedade imensa que acarreta vergonha e sentimento de culpa, tal como expresso na história bíblica de Adão e Eva que, após o pecado inicial que os transformou em humanos, se emanciparam da harmonia animal original com a natureza e conceberam para si um sentimento de solidão. Mas, como superar esse estado de separação? Como alcançar a união? Como transcender sua vida individual e encontrar a conciliação? Segundo Fromm, as respostas dependem do grau de individuação alcançado.

O sentido de comunidade tratado por Bauman decorre justamente desta busca por segurança e proteção, de estar no mundo unido e podendo contar com os outros. Os diferentes graus de individuação apresentam uma relação com as diferentes classes sociais. Carregando certa ironia em suas linhas, dedica um capítulo do livro a uma análise sobre "a secessão dos bem-sucedidos" referindo-se "ao novo distanciamento, indiferença, desengajamento e, em verdade, à extraterritorialidade mental e moral daqueles que não se importam de ficar sós, desde que os outros, que pensam diferente, não insistam em que se ocupem e muito menos partilhem sua vida por conta própria" (p. 49).

Ou seja, o grupo de privilegiados sociais – "elite global" – formado pelos que não precisam mais dos serviços da comunidade, não conseguindo compreender o que ganhariam permanecendo "na" e "com" a comunidade, mas no que poderiam perder se eles se submetessem às demandas da solidariedade comunitária, formariam as "comunidades cercadas", eletronicamente protegidas e controladas. Essa "elite global" – formada pelos que podem ser denominados também de "globalizados" – integra-se com a ideia de um "cosmopolitismo seletivo". A principal celebração deste estilo de vida, segundo o autor, "é a irrelevância do lugar, uma condição inteiramente fora do alcance das pessoas comuns, dos ‘nativos’ estreitamente presos ao chão e que (caso decidam desconsiderar os grilhões) vão encontrar no amplo mundo lá fora funcionários da imigração pouco amigáveis e severos em lugar dos sorridentes recepcionistas dos hotéis" (p. 54).

A "bolha" em que a elite cosmopolita global se aparta do mundo real é uma zona livre de comunidade, ou seja, uma fuga da comunidade. Gerada em uma sociedade globalizada e desregulada, a nova elite cosmopolita se localiza em uma extraterritorialidade onde a certeza e a segurança entraram em colapso e a ideia de comunidade nunca existiu. Nesse mundo da elite global dos negócios e da indústria cultural só quem tem espaço no palco é quem tem capacidade de participar do jogo do consumo, não havendo espaço para realidades feias e duras.

É bastante interessante a forma utilizada por Bauman para alertar o leitor sobre as diferentes concepções de comunidade, no que se refere a quem a utiliza e como é construída. Assim, a "comunidade" da elite global é inteiramente diferente daquela outra "comunidade" dos fracos e excluídos e, conseqüentemente, a noção de "comunidade" para cada um desses grupos corresponde a experiências inteiramente diferentes e a aspirações contrastantes. Quanto à sua construção, o autor afirma que a "comunidade" deve ser tão fácil de decompor como foi fácil de construir: criação e desmantelamento como resultados das escolhas feitas pelos que as compõem. Na modernidade, os vínculos com a comunidade são voláteis, formando comunidades instantâneas, de consumo imediato. O autor traz a ideia de comunidades estéticas que se formam em torno de ídolos e se caracterizam por sua natureza superficial e transitória, pois os laços que surgem entre os seus integrantes são descartáveis e pouco duradouros.

A comunidade "estética" se contrapõe à comunidade "ética", de compromissos de longo prazo, de "direitos inalienáveis e obrigações inabaláveis" que reafirmam "o direito de todos a um seguro comunitário contra os erros e desventuras que são os riscos inseparáveis da vida individual". Desta forma, o sentido de justiça entre os povos na atualidade deve ser pensado tanto no que se refere à redistribuição quanto ao reconhecimento. Bauman, a partir das contribuições de Castoriadis, irá afirmar que o reconhecimento do direito é um convite para um diálogo onde as vantagens e desvantagens das diferenças em questão possam ser discutidas e acordadas. Este reconhecimento da pluralidade de formas que a humanidade pode assumir e o grau de tolerância sustentado por uma política "multiculturalista" cria defesas contra a homogeneização opressiva e a indiferença soberba.

Em contraposição a este caminho do reconhecimento, muitos espaços sociais, como os bairros de luxo, optam pela separação em lugar da negociação da vida em comum, evidenciando a formação da nova concepção de "comunidade" onde a ausência do outro que teima em ser diferente e capaz de causar surpresas desagradáveis é uma forte característica. O gueto parece mostrar bem este espaço. Loic Wacquant afirma que o gueto combina o confinamento espacial com o fechamento social, sendo ao mesmo tempo territorial e social, e onde se mistura a proximidade/distância física com a proximidade/distância moral. Os guetos, para Bauman, são lugares reais de onde não se pode sair; verdadeiras prisões que implicam a negação da liberdade para aqueles excluídos e marginalizados. Assim, a vida no gueto não contribui para a comunidade, uma vez que o compartilhamento do estigma alimenta o desprezo e o ódio. Em síntese, o gueto representaria a impossibilidade de comunidade.

Nas pinceladas finais de seu livro, Bauman irá desenvolver uma análise-síntese colocando como ponto central os limites e possibilidades da coexistência e beneficiamento mútuo de uma vida compartilhada por culturas diferenciadas. Em um mundo de "multiculturalismo", a questão se lança em como conciliar, por um lado, o direito de uma comunidade à proteção contra forças assimiladoras administradas pelo Estado ou pela cultura dominante e, por outro, o respeito ao direito dos indivíduos à proteção contra pressões comunitárias que negam ou suprimem a escolha. O autor introduz a questão: "Qual dos dois direitos é o mais forte – forte o bastante para anular ou pôr de lado as demandas que invocam o outro?" e, como resposta sugere que proteger o indivíduo tanto das pressões não-comunitárias quanto das pressões comunitárias é essencial à realização de qualquer das duas tarefas. A universalidade da cidadania, segundo Bauman, é a condição preliminar de qualquer política de reconhecimento significativa.

Enquanto a segurança é uma condição básica para que um diálogo entre as culturas seja frutífero, a comunidade representa o lugar paradisíaco desta tão esperada segurança. A partir desta relação entre comunidade e segurança, o livro Comunidade: a busca por segurança no mundo atual fornece uma rica análise sobre os motivos de a comunidade ser "procurada como abrigo contra as sucessivas correntezas de turbulência global" em um mundo cada vez mais individualizado."


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MEDITAÇÃO DA LUZ DOURADA

MEDITAÇÃO DA LUZ DOURADA
Deve-se estar sentado confortável com a coluna vertebral bem direita. Começamos por inspirar profundamente pelo nariz e expiramos pela boca. Visualizamos a inspiração em energia branca e pura e a expiração levando todas as toxinas e energias negativas em névoas negras. Seguidamente concentramo-nos na energia do universo, das estrelas, dos planetas e focalizamo-nos em inspirar essa energia, preenchendo-nos completamente com ela. Sentimos o nosso corpo envolvido e preenchido com essa energia de paz e amor universal. Mantemos esta sensação durante cerca de dois minutos e depois, lentamente, pensamos somente em inspirar paz. Pensamos na paz e concentramo-nos na respiração desse sentimento, um sentimento de paz. Quando expiramos, enviamos paz também para o universo, preenchendo-o. Fazer esta respiração durante cerca de dois minutos e está-se pronto para a Meditação da Luz Dourada. Visualizamos de seguida, que inspiramos uma luz dourada. Sentimo-la a entrar para os nossos pulmões e a espalhar-se por todo o nosso corpo. Fazêmo-lo nove vezes. Passamos a respirar regularmente pelo nariz. Depois, começamos a visualizar uma linha dourada desde a base da espinha até ao topo da cabeça. Visualizamos essa linha dourada da grossura de um fio de electricidade. Fazêmo-lo nove vezes. Visualizamos então a grossura do fio dourado a aumentar lentamente até atingir a grossura de um lápis. Sentimos a luz dourada desde a ponta da espinha até ao topo da cabeça. Novamente sentimos a expansão da grossura da luz dourada até atingir a grossura de um dedo a fluir desde o topo da cabeça até à base da espinha. Agora, sentimos a luz a expandir-se para uma coluna de luz dourada que flui desde a base da espinha até o topo da cabeça. Visualizamos esta bela coluna de luz dourada a expandir-se lentamente até nos envolver completamente todo o corpo. Ficamos a sentir, pacificamente, essa luz dourada a envolver-nos. Agora, lentamente visualizamos a coluna de luz que nos envolve, a transformar-se num grande ovo de luz dourada que nos envolve completamente. Sentimos a sua paz e também a sua protecção. Tudo o que está dentro desse ovo cintila de energia, alimenta a nossa aura de energia e fortalece-a. Ficamos durante cerca de dois minutos sentindo-nos envolvidos por esse ovo de luz dourada. Depois, começamos a visualizar o encolhimento do ovo dourado. Primeiro sentindo-o voltar à forma de coluna, e depois lentamente sentimo-la encolher até à base da espinha e ao topo da cabeça. Depois sentimo-la a encolher lentamente até ficar do tamanho de um dedo, depois de um lápis, e finalmente, da grossura dum único fio dourado. Agora, sentimos a energia desse fio dourado a fluir desde a base da espinha até ao topo da cabeça e focalizamo-nos no ponto de intersecção das linhas do terceiro olho e do topo da cabeça. Respiramos por nove vezes, sentindo a energia da luz dourada nesse local da cabeça e depois, deixamos a energia fluir de novo para a boca, estômago, baixo abdómen, deixando-a dissolver-se aí lentamente. Respiramos fundo mais umas quantas vezes e sentimos toda a paz e protecção que essa luz dourada nos proporcionou. Sentimos que podemos fazer esse exercício sempre que quisermos, envolver-nos nessa luz dourada e fortalecer a nossa aura com a sua protecção e energia.

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